Trilhando saberes e cooperação
26/06/2026
Programa Trilhas Potiguares celebra 30 anos de história com edição na Amazônia Paraense
Por Lucas Targino - Projeto Comtrilhas
Equipe da UFRN na chega em Belém/PA
Foto: Lucas Targino
Entre os dias 14 e 20 de junho, o Pará foi palco do Trilhas Potiguares Amazônia 2026, edição que celebrou as três décadas de trajetória do Programa Trilhas Potiguares da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PTP/UFRN). A iniciativa reafirmou o compromisso do programa com diretrizes como a internacionalização, o intercâmbio entre instituições e a extensão universitária (que compõe, ao lado do ensino e da pesquisa, o tripé que fundamenta o ensino superior no país). Ao todo, foram promovidas mais de 60 ações distribuídas por cinco municípios, alcançando um público superior a 1.300 pessoas. As oficinas contemplaram eixos fundamentais como direitos humanos, saúde, educação, meio ambiente, acessibilidade, comunicação social, além de trabalho e renda.
Ao todo, 25 estudantes e 11 docentes da UFRN viajaram para Belém no domingo, 14 de junho. Na segunda-feira, 15, iniciaram as atividades em conjunto com as equipes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). As instituições atuaram de forma colaborativa com o objetivo comum de promover desenvolvimento, inclusão social, formação cidadã e intercâmbio de saberes.
Para otimizar a realização das atividades e ampliar o alcance das ações, a equipe da UFRN foi dividida em dois grupos: Ilhas, responsável pelas atividades nas localidades de Outeiro e Combu, em Belém, e em São Sebastião da Boa Vista, na Ilha de Marajó; e Terras, que realizou ações nos municípios de Aurora do Pará e Tomé-Açu, ambos situados na região nordeste do estado. Na quinta-feira, 18, todos os participantes voltaram a se reunir para uma atuação conjunta no município de Curuçá, localizado no norte do Pará. As atividades foram encerradas na sexta-feira, 19, em Belém, com a realização do Seminário Internacional de Pesquisa e Extensão Trilhas Potiguares Amazônia 2026.
Entre os destaques da edição estiveram as oficinas sobre acessibilidade ministradas pelos estudantes Elvis Gley, Rafael Guilherme Pereira e Ana Alice Oliveira; e pela professora Gisele Oliveira, do curso de Letras - Libras/Língua Portuguesa da UFRN. As atividades foram voltadas para estudantes, professores e servidores públicos da educação.
Com o objetivo de conscientizar os participantes sobre a importância da integração plena de Pessoas com Deficiência (PcDs) no processo de ensino e na socialização nas escolas, as oficinas foram muito bem recebidas pelas comunidades locais, que aprenderam a teoria e também receberam uma introdução à Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Elvis Gley, que é surdo, comenta que as atividades tiveram “ótimas interações; com as aulas finalizadas, [os participantes] continuaram conversando com a gente e mostrando o que aprenderam”.
Apesar da boa recepção, Elvis relembra que a acessibilidade ainda é um tema negligenciado na sociedade brasileira. “Na Ilha de Marajó, os professores e servidores públicos não conheciam sobre capacitismo. Fiquei feliz em passar informações sobre como a realidade dói e como somos fortes, como eles. Agora eles estão bem informados”, comentou.
Relevância da extensão e impacto do Trilhas Potiguares Amazônia 2026
Promovido pela Pró-reitoria de Extensão (Proex/UFRN) desde 1996, o Trilhas Potiguares está consolidado como o maior programa de extensão da universidade, servindo de modelo para ações similares em outras universidades e institutos. De acordo com o Pró-Reitor Adjunto de Extensão e coordenador do Trilhas Potiguares, professor. Luiz Alves (Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi - Facisa/UFRN), a edição comemorativa também serviu como estimuladora do espírito extensionista nas instituições parceiras.
Retomando a intenção UFRA em realizar o seu próprio projeto já em 2027, que se chamará “Trilhas Amazônicas”, o professor destaca que “essa ação também foi uma semente plantada, que ainda produzirá muitos resultados efetivos nas instituições, nos docentes, nos discentes e na sociedade”.
Luiz Alves avaliou a ação como muito positiva e também reforçou o impacto dessa rede de cooperação de ensino, pesquisa e extensão na transformação da visão de mundo das comunidades participantes e dos estudantes que, através das trocas de experiências e do intercâmbio cultural, têm a oportunidade de colocar na prática o que aprendem em sala de aula.
O coordenador-adjunto do programa, professor Itamar Nobre (CCHLA/UFRN), destacou a importância formativa das ações extensionistas. “A extensão ajuda a fazer com que as pessoas percebam que há um horizonte de bem-estar e de uma vida melhor a se alcançar. Isso serve para alunos, para pessoas da comunidade e para professores. O professor que participa de uma ação desse tipo tende a se melhorar e a perceber que não é só a sala de aula que faz com que o ensino seja eficaz”, concluiu o coordenador-adjunto.
Colaboração entre instituições e internacionalização
A edição de 30 anos também serviu ao propósito de fortalecer as relações entre instituições de outras regiões do país e do mundo. A docente da UFRA (campus Tomé-Açu) e coordenadora local do Trilhas Amazônia 2026, Ticiane Santos, descreveu a essência do programa como a da “verdadeira extensão, ‘quebrando’ todos os muros da UFRN”.
“Nós, que somos do interior do estado, sabemos a importância que é estar ao lado do conhecimento e da universidade. Para que eu pudesse estudar, eu precisei sair do interior para a capital, Belém. No mestrado, eu fui para a UFRN, e foi essa aproximação que possibilitou a vinda do projeto para a cidade de Tomé-Açu”, ressaltou Ticiane ao discutir a necessidade do diálogo interinstitucional.
O estudante do curso de Administração da UFRA - Tomé-Açu, Pedro Henrique, destacou o Trilhas Potiguares como uma das suas melhores experiências na universidade. Pedro, que nunca havia integrado um programa de extensão desse porte, afirmou que “o melhor de tudo foi a familiaridade e união entre todas as pessoas participantes. O programa conseguiu formar amizades entre várias pessoas de lugares e culturas diferentes”.
A construção de relações com universidades estrangeiras também foi um dos focos da ação, que reuniu docentes da Universidade de Múrcia (UM - Espanha) e Universidade Save (Unisave - Moçambique). Para a professora Crisalita Djeco Funes (Unisave), a experiência será muito importante para a comunidade moçambicana. Segundo a docente, “os nossos alunos ficam a pensar que é impossível alcançar a universidade, mas com a união do ensino, pesquisa e extensão, podemos alimentar essa esperança. Então, que bem haja Trilhas Potiguares, bem haja Trilhas Amazônia e bem haja Trilhas Moçambique!”, concluiu Crisalita.
Programa Trilhas Potiguares: uma breve história
O Programa Trilhas Potiguares teve sua primeira edição no ano de 1996, inspirado em um projeto de extensão do Centro Acadêmico de Geografia (o projeto Pé-Na-Trilha), que tinha como proposta central a promoção do conhecimento sobre o estado do Rio Grande do Norte por meio de caminhadas que proporcionavam aos estudantes uma imersão nas realidades geofísicas e humanas da região. Em 1997, ocorreu a implementação de uma diretriz que norteia as ações do programa até os dias de hoje: a busca de envolvimento da universidade na resolução de problemas das localidades nas quais os projetos foram conduzidos.
No ano de 2017, a primeira ação de internacionalização do programa foi realizada por meio de uma missão a Moçambique, no sul do continente africano. Em 2025, Moçambique recebeu o programa novamente. Desde 2024, o Trilhas também conta com estudantes estrangeiros, coordenados pelo professor Fransualdo Azevedo (CCHLA/UFRN).
Os esforços de nacionalização do programa se iniciaram em 2023, com a participação do PTP no Projeto UFPE No Meu Quintal (UFPENMQ), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Após a primeira edição em parceria, realizada em Sertânia (interior de Pernambuco) naquele ano, o PTP retornou ao estado em 2024, para a cidade de Belém do São Francisco. As edições estaduais (realizadas no RN) do Trilhas, a partir de então, também contaram com a participação do UFPENMQ. A viagem a Belém do São Francisco também resultou na formação de vínculos com a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), de Ilhéus - Bahia, que enviou discentes ao Trilhas Potiguares nos anos seguintes.
Saudades e reencontros
As conexões criadas pelo programa ao longo de três décadas também se manifestam nas trajetórias individuais de seus participantes. Nascida na Maternidade Escola Januário Cicco no ano de 1970, a professora do IFPA, Liz Pereira, gosta de lembrar que literalmente nasceu na UFRN, já que a maternidade faz parte da instituição. “A primeira pessoa que encontrei na minha vida foi uma professora, que me tirou do bucho da minha mãe”, conta a docente. 26 anos depois, em 1996, Liz participou da primeira edição do Trilhas Potiguares, ainda como aluna, trabalhando com plantas medicinais e etnobotânica. Em 1998 e 1999, ela integrou a equipe do PTP como coordenadora e docente substituta da UFRN antes de se mudar para a Amazônia, em 2001.
“O Trilhas Potiguares foi algo revelador na minha vida profissional, que me deu a forja para fazer tudo que eu faço hoje, tanto no ensino, quanto na pesquisa e na extensão. Eu aprendi que a gente precisa ir na comunidade para descobrir as necessidades e como o ensino vai poder interferir nessa realidade, levando ela para a pesquisa e trazendo respostas”, reflete a professora sobre o impacto do programa na sua trajetória.
No Pará, Liz morou e atuou com os três pilares da universidade no município de Itaituba, localizado a 1300 km de Belém, às margens do Rio Tapajós. Ao ser aprovada no concurso do IFPA, em 2010, a docente continuou trabalhando na cidade por mais 12 anos como professora de biologia. Em 2022, foi transferida para o campus de Paragominas e, em 2025, para o de Belém. Foi nesse momento, por meio das redes sociais da Proex/UFRN, que ela descobriu que o Trilhas Potiguares iria visitar a sua segunda casa: a Amazônia.
Após uma longa trajetória profissional e acadêmica no estado, Liz adiantou seus projetos de tecnologia social para combate ao Aedes aegypti e conseguiu, finalmente, se reinserir no Trilhas Potiguares. “Vocês não fazem ideia do que é um nordestino, 25 anos fora do Nordeste, de repente se ver rodeado por seus conterrâneos, da mesma universidade, fazendo aquilo que a gente já fazia antes. Foi uma injeção de ânimo, como se eu tivesse renascido nos braços dos meus colegas da UFRN”, reforça Liz, emocionada.
A professora relembra como a semana de ações conjuntas a comoveu e despertou lembranças felizes do passado: “Quando eu vesti a camisa eu quis chorar de novo. Eu tô só chorando, mas é de felicidade. Ver aquela bandeira azul enorme na minha frente, tirar fotos, acompanhar e ver os projetos dos meninos, ver todo o desenvolvimento, conhecer lugares que eu ainda não conhecia, acompanhada pela UFRN. Eu estava em casa duas vezes”.
“Vocês vieram para onde eu estava, no fim das contas, e eu me senti visitada. É magnífico tudo isso eu só tenho a agradecer a tudo e a todos, especialmente à UFRN por ser essa potência”, concluiu Liz Pereira.
Trilhas Potiguares 2026
Além da edição na Amazônia Paraense, o Trilhas Potiguares também realizará, em julho, a edição estadual, no RN, com o tema “Sociedade e academia: 30 anos de extensão com diálogo, parceria e impacto social”. Os municípios selecionados foram Alexandria; Arez; Cruzeta; Frutuoso Gomes; Galinhos; Itajá; Lagoa de Velhos; Lajes; Martins; Maxaranguape; Pedro Avelino; Pureza; Ruy Barbosa; Serra Negra do Norte; e Viçosa.
